ALARMANTE

Jucieli pediu proteção — e foi morta um mês depois: o que os dados de feminicídio em MT revelam sobre falhas de prevenção

Publicado em

Vítima de 30 anos, assassinada em Nobres (13/10), tinha medida protetiva expedida em Rosário Oeste em 03/09/2025. Mato Grosso segue entre os piores indicadores do país para feminicídio e maioria dos crimes ocorre dentro de casa.

Um mês separou o pedido de socorro do desfecho que Jucieli Ribeiro Caju Boa Morte tentava evitar. Em 03 de setembro de 2025, ela obteve medida protetiva em Rosário Oeste contra o ex-companheiro. Na manhã de 13 de outubro, em Nobres, o homem invadiu a casa, arrombou uma janela com barra de ferro e atirou nela. Jucieli foi socorrida, mas morreu no hospital; o agressor acabou morto após ser desarmado pelo atual namorado da vítima.

O caso expõe um dilema conhecido por quem trabalha com violência de gênero: medida protetiva salva vidas, mas não é colete à prova de balas. Sem monitoramento ativo, resposta rápida a descumprimentos e ferramentas como tornozeleira eletrônica, a proteção pode ficar no papel.

O que está documentado no processo de Jucieli

  • Medida protetiva concedida em 03/09/2025 (Rosário Oeste), com proibição de contato e aproximação.

  • Relatos de ameaça e perseguição após a separação.

  • Invasão ao domicílio em 13/10, seguida de tiros; vítima morre horas depois.

A Polícia Civil apura feminicídio qualificado e descumprimento de medida protetiva.

O retrato de Mato Grosso (dados recentes)

  • Taxa mais alta do país: MT registrou 2,5 feminicídios por 100 mil habitantes (ano-base 2024), acima da média nacional (1,4/100 mil), segundo a Defensoria Pública/RENORCRIM com base no Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

  • Crianças órfãs: em 2024, 41 das 47 mulheres mortas por feminicídio em MT eram mães; 89 filhos ficaram sem as mães, aponta a Polícia Civil.

  • Local do crime: 83% dos feminicídios de 2024 aconteceram no ambiente doméstico, segundo relatório da Inteligência da PJC.

  • Esclarecimento dos casos: a Polícia Civil informou ter identificado 100% dos autores dos feminicídios de 2024 (47 crimes consumados).

  • 1º semestre de 2025: o Ministério Público reportou 27–28 feminicídios no período (variação decorre de critérios de contagem/atualização).

Nota metodológica: há diferenças entre contagens por órgão (PJC, MPMT, Defensoria/Anuário) por causa de períodos, classificação (consumados vs. tentativas) e atualizações. Nesta reportagem, priorizamos taxa oficial por 100 mil (Anuário/Defensoria), perfil das vítimas e contexto (PJC) e séries semestrais (MPMT).

O que a morte de Jucieli diz sobre nós

Jucieli fez tudo o que o sistema pede: denunciou, obteve medida, informou o risco. Mesmo assim, morreu. Quando um estado ostenta a maior taxa de feminicídio do país e a maioria dos crimes ocorre dentro de casa, a prevenção não pode depender só da coragem da vítima.

Leia Também:  Ex-presidiário "namorado" de sargento da PM é baleado com arma da militar

O que falta não é lei — é execução: monitorar agressores, reagir a violações em minutos, integrar polícia, Judiciário e assistência social, e garantir abrigo quando “voltar para casa” é a sentença. Enquanto tratarmos a medida protetiva como documento e não como operacionalização de proteção, seguiremos escrevendo obituários que deveriam ser relatórios de prevenção bem-sucedida.

Direito de resposta — Espaço aberto para manifestações da Polícia Civil, Secretaria de Segurança Pública, Poder Judiciário e Defensoria Pública sobre os procedimentos aplicados ao caso.

Anúncio

MAIS LIDAS DA SEMANA