SAÚDE
“Casos começam a subir de forma muito intensa; temos receio”
Após o relaxamento da quarentena em Mato Grosso, número de casos de pacientes infectados pela Covid-19 estão aumentando em Cuiabá e causam preocupação em profissionais que estão na linha de frente no combate ao vírus.
Eu acompanho diretamente o nosso hospital e posso te dizer que gerou efeitos diretos, principalmente de ocupação da nossa UTI, porque não só aumentou o número de casos, mas aumentou os números de casos graves, afirma a infectologista Zamara Brandão.
Além de suas preocupações, a médica, formada há 16 anos, conta sobre a mudança drástica em sua rotina trabalhando no Hospital Santa Rosa na Capital.
A gente precisa ter cuidado com nós mesmos, para não se infectar, e cuidar para que quando o paciente chegue ele não corra o risco de ser infectado aqui, explica.
MidiaNews: Após dois meses lidando no dia a dia com o coronavírus, qual a impressão que a senhora tem sobre a doença atualmente?

Até março eu achei que foi menos assustador do que pensávemos, porém agora eu devo admitir que nas duas últimas semanas, principalmente após o relaxamento da quarentena, infelizmente, a gente já começa a ficar com receio.
Zamara Brandão – Foi no início de março e chegou para nós de uma maneira intensa. Foi quando começaram as ações do governo e, desde esse princípio, nós estamos lidando e conhecendo o coronavirus. No começo a gente veio com todo o receio porque a gente viu o que ocorreu na China e na Europa. Por isso o início foi muito sofrido, mas graças às medidas do governo, principalmente no primeiro mês de março, vimos que a população respeitou a quarentena e felizmente os nossos números não subiram de maneira assustadora e não tivemos muitos pacientes graves, como imaginávamos que iríamos atender.
Então naquele primeiro momento, eu pensei que nós havíamos aprendido com o que os outros passaram, porque isso que estamos vivendo agora a China viveu em janeiro, a Europa no início de fevereiro. Por isso a gente já sabia qual era o vírus causador, a maneira de transmissão e a forma de se previnir e acabamos pegando uma fase mais fácil do que os colegas e os antecessores. Até março eu achei que foi menos assustador do que pensávemos. Porém agora devo admitir que, nas duas últimas semanas, principalmente após o relaxamento da quarentena, infelizmente, a gente já começa a ficar com receio. O número de casos começou a subir de uma forma muito intensa, algo que ainda não tinha acontecido, e nós começamos a receber pacientes mais graves do que antes.
Por isso, de lá para cá minha maneira de ver o vírus mudou bastante. Agora começo a ter grandes receios assim como tínhamos no começo.
MidiaNews – Como a senhora vê o comportamento das pessoas que negam o risco da doença e colocam as suas e outras vidas em risco?
Zamara Brandão – Honestamente fiquei muito surpresa, porque acreditei que haviamos aprendido um pouco e visto que os nossos números estavam controlados. E de uma maneira diferente do que achei que aconteceria, o pessoal não aderiu às medidas de prevenção e hoje colhemos o reflexo disso no aumento nos casos. Isso me preocupa muito, porque as pessoas que não têm o convivio com o paciente infectado, como nós, podem ter uma visão errada de que a doença não é tão grave quando na realidade ela é.
E ainda fiquei mais triste após ler uma informação sobre Mato Grosso ser o segundo Estado com menor adesão as precauções do Brasil. Nós só temos 38% de adesão ao islamento e outras medidas. Isso me faz pensar que as pessoas não têm mais aquele receio inicial.
MidiaNews – Como tem sido a rotina de atendimento no hospital?
Zamara Brandão – Na verdade acredito que não seja nem uma rotina, é uma quebra de rotina. Porque para nós, além do aumento de casos, hoje todos os profissionais temos um método intenso de proteção, com máscara, óculos, touca, capote, luva para atender os pacientes, coisa que normalmente não faziamos antes.
Zamara afirma que está acompanhando os estudos sobre possíveis vacinas do coronavírus
.Também temos um cuidado redobrado. Não só avaliar o paciente, precisamos avaliar outs coisas. Tenho que me vigiar para não colocar a mão no rosto, tomar o cuidado de fazer uma ótima higienização quando um paciente sair da sala, prestar atenção se ele tocar em objetos, porque vai precisar desinfectar, porque senão eu posso colocar a próxima pessoa em risco. Sou infectologista há 16 anos e essa foi uma mudança drástica. A gente precisa ter cuidado com nós mesmos para não nos infectarmos e cuidar para que quando o paciente chegue ele não corra o risco de ser infectado aqui.
MidiaNews – Em alguns lugares foram relatados problemas além dos pulmonares, como danos neurológicos e renais. Os pacientes atendidos pela senhora apresentaram algum tipo de sintoma que lhe surpreendeu?
Zamara Brandão – Sim. A gente teve um paciente que precisou ser reinternado porque apresentou uma síndrome neurológica pós-infecciosa. Então, ele teve o coronavírus e estava já na fase de melhora clínica importante quando desenvolveu o quadro neurológico que causava tremores. Agora ele já está se curando, mas foi um sintoma bem diferente.
Sempre digo que estamos aprendendo. Nós tivemos a oportunidade de acompanhar a doença desde o nascimento dela, no dia 31 de dezembro. Antes disso nem sabíamos da exisência desse tipo de coronavírus. Então é muito pouco tempo para sabermos todos os efeitos e todas as fases pós-infeccionasas da doença.
MidiaNews – Há alguns pacientes em Cuiabá que chegaram a ficar mais de um mês na Unidade de Tratamento Instensivo (UTI). Por que isso ocorre com algumas pessoas e com outras não?

Existe uma coisa chamada responsabilidade social, eu tenho que cuidar de mim e do meu próximo, porque se não, corre o grande risco da doença bater à porta da minha casa.
Zamara Brandão – Isso depende da resposta imunológica de cada um. Eu posso pegar o coronavírus e ir para UTI e você também pode se infectar e não acontecer nada. Então a resposta do corpo ao vírus é diferente para cada um de nós e é isso que vai determinar se eu vou evoluir para uma fase mais crítica ou não. Infelizmente não há outro jeito de descobrir se não for pegando, por isso precisamos nos previnir, já que não há como saber se somos nós que vamos ser a próxima vítima da infecção grave.
MidiaNews – Nos últimos dias, os casos de coronavítus cresceram bastante em Cuiabá. Isso tem causado reflexos nos leitos e UTIs do Hospital?
Zamara Brandão – Eu acompanho diretamente o nosso hospital e posso te dizer que gerou efeitos diretos, principalmente de ocupação da nossa UTI, porque não só aumentou o número de casos, mas aumentou os números de casos graves que precisavam dos leitos.
MidiaNews – Tem acompanhado os estudos por novos medicamentos e vacinas? Há algum que deixa a senhora esperançosa?
Zamara Brandão – Com certeza! Acho que hoje a vida do infectologista é ficar esperando um estudo que encontre uma vacina ou tratamentos definitivos. No entanto, imagino que para ser um estudo mais completo exige-se tempo, porque ele precisa de um acompanhamento prolongado, com um número maior de pacientes. E como tem pouco tempo de coronavírus, tudo que a gente lê é muito frágil. São estudos que têm poucos pacientes e que duraram pouco tempo. Por isso se fala muito que o estudo não é definitivo. É porque sem o tempo hábil você não pode afirmar nada como uma verdade terapêutica. Então acredito que vamos precisar andar muito ainda para ter uma medicação definitiva. Até porque, depois da vacina ser aprovada, é preciso fazer testes e mais testes. Por esses motivos, apesar da esperança, acho que o tratamento ainda vai demorar para ser estabelecido.
MidiaNews – A senhora acredita que vai chegar um momento em que vamos precisar adotar o lockdown?

O que sempre falo é que a máscara é de fundamental importância, porque se eu estou usando ela, eu não vou transmitir.
Zamara Brandão – Do fundo do coração eu espero que a gente não precise, porque o lockdown é muito difícil. Tenho amigos que trabalham fora do Brasil e é uma medida muito penosa, tanto para o governo, quanto para a economia e para as pessoas. Eu acho que os meios de comunicação são de fundamental importância para alertar as pessoas sobre o tanto que precisamos no cuidar agora, para que a gente não precise passar por uma medida desse tamanho. Países da Europa estão há 60 dias de lockdown, é uma coisa terrível, você não tem vida.
MidiaNews – O governo do Estado obrigou o uso de máscara, mas, mesmo assim, os casos vêm crescendo. Acha que falta mais conscientização sobre o distanciamento social?
Zamara Brandão – No Dia das Mães eu fiquei bastante chocada com o tanto que o Shopping de Várzea Grande estava lotado. O pessoal na praça de alimentação, uns de máscar e outros não. Aacho que o pessoal deu uma relaxada, porque pensou que seria mais intenso e não foi, mas isso só não aconteceu no começo porque a gente usou máscara e ficamos isolados.
O que sempre falo é que a máscara é de fundamental importância, porque se eu estou usando ela, eu não vou transmitir. Existe uma estimativa de que cada um que pega o Covid-19 transmite para pelo menos outras seis pessoas. Então temos sempre que pensar que uma dessas pessoas pode ser alguém da nossa casa, e não tem jeito de prever se o paciente vai evoluir bem ou não.
Existe uma coisa chamada responsabilidade social. Eu tenho que cuidar de mim e do meu próximo, porque se não, corre-se o grande risco da doença de bater à porta da minha casa.
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