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AGRESSORES DE MULHERES: Abusador sabe que é crime e não se importa; ele quer ter poder

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O psicólogo Douglas Amorim acredita que a pessoa que comete abusos dentro de uma relação amorosa tem consciência da gravidade dos seus atos, mas não se importa.

 

 

 

Amorim, que é autor do e-book “Como Sobreviver a um Relacionamento Tóxico!”, diz que o abusador não possui empatia com o outro quando comete algum tipo de violência, seja psicológica ou física.

 

 

 

“Ele [abusador] tem consciência que aquilo ali é errado, que ele está cometendo crime, que aquilo pode manchar a imagem dele de boa pessoa, que todo abusador tenta manter. Só que ele não se importa, não tem uma empatia”, afirma.

 

 

 

Conforme o psicólogo, esse tipo de pessoa quer apenas se sentir no controle da relação e da parceira. Isso pode ocorrer por diferentes meios. “O que ela quer é apenas sentir que ela é a pessoa que tem poder, seja poder pelo medo, pela manipulação”.

Para o psicólogo, denúncias feitas por mulheres contra o advogado Cleverson Contó exemplificam um padrão de comportamento.

 

 

 

Em entrevista , Amorim também comentou sobre como fica o psicológico de mulheres que passam por relacionamentos abusivos, como identificá-los e o que fazer ao se deparar dentro de um.

 

 

1- O que é abuso emocional ou psicológico?

 

Douglas Amorim – Abuso é configurado como tudo aquilo que reduz a vítima aos desejos, vontade e condução do abusador. Abuso emocional ou psicológico é tudo aquilo que reduz a vítima a esse controle, o controle do abusador. Não importa o que a vítima quer, o que ela pensa, o que sente, não importa absolutamente nada que seja da vítima. A vontade do abusador é feita acima de qualquer coisa. Ele faz esse processo de abuso sem nenhuma estrutura de empatia, sem colocar-se no lugar do outro, sem compreender que seus atos podem ferir, causar tristeza, angústia, ofender. Ele não se importa. A questão ali é uma relação de poder e onde há poder não há amor, não há sentimento, não há absolutamente nada que seja o ideal dentro de um relacionamento.

 

 

 

Como fica uma mulher que passa muito tempo com uma pessoa abusiva?

 

 

 

Douglas Amorim – Abusadores, pessoas que agem de modo tóxico e nocivo dentro dos relacionamentos, têm uma sistemática, têm um jeito de funcionar e que vai funcionar para todas as vítimas. Porque a ideia não é se relacionar, é estabelecer relações em que este abusador esteja no lugar de controle, de poder, onde ele dita as regras. E não importa o que ele precise fazer para a vítima se sentir inferior, reduzida, fraca, inclusive violência física. Isso vai acontecendo de modo gradativo, através de pequenos testes que vão desde o início do relacionamento. Isso começa com situações de controle que parecem apenas ser cuidado ou ciúmes, que parece aquela insegurança de início de relação. Isso vai aumentando o nível e cada vez que a vítima é desrespeitada, agredida verbalmente ou fisicamente e ela retorna para a relação, ela está pronta para o próximo nível de abuso, de violência. É como se ela dissesse para o abusador: ‘Eu aceitei até aqui e vou continuar aceitando’.

 

 

 

Infelizmente a vítima vai se desconstruindo, vai abrindo mão dos próprios valores, ela vai abrindo mão daquilo que ela acredita ser um relacionamento saudável porque ela tem um desejo profundo de fazer aquela relação funcionar. E ela passa a se alimentar de passado e futuro, nunca do presente. O passado e futuro ela se alimenta assim: “Será que um dia vai voltar a ser como era lá nas primeiras semanas?”. Porque o presente é insuportável, o que está acontecendo no momento, a revelação de que ela está com alguém muito descontrolado, abusador, agressivo, narcisista, é insuportável ver isso. Ela não dá conta de ver isso, então se alimenta da visão inicial que foi apenas um comportamento que ele teve para poder seduzi-la, muitas vezes sendo extremamente romântico, oferendo confortos financeiros, oferendo às vezes coisas que são muito atraentes. E depois ele retira isso e passa a de fato alimentar com um futuro falso. Também acontece muita culpabilização. A vítima sempre se sente culpada ou parte integrante daquilo que levou o outro a reagir de modo violento.

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 Além do psicológico, quais outros tipos de abusos podem ocorrer?

 

 

 

Douglas Amorim – Abusos financeiros, principalmente quando o abusador tem uma situação financeira inferior ou não conseguiu construir uma carreira, se estabelecer financeiramente. Então pode acontecer o abuso financeiro. E muitas vezes acontece mesmo o abusador tendo uma boa situação porque ele quer ter controle sobre a vítima. Então ele começa a sugerir conta em conjunto, a cuidar das finanças, fazer investimento com o dinheiro dela. Muitas vezes ele até tem dinheiro, mas faz esse abuso financeiro porque ele quer ter controle sobre a vítima. Quanto menos autonomia a vítima tiver, melhor para ele. A vítima se mantém atada ao relacionamento. Também podem acontecer abusos sexuais de modo mais sutil ou de modo direto. O modo mais sutil seria ele começar a controlar os dias que eles vão ter relações. Quando a vítima procura, ele não responde porque aí ele começa a ter controle dos dias que eles vão ter relações sexuais. Eles ficam criticando muito as vítimas, criticam o sexo, o corpo, porque essa vítima vai começando a sentir uma vontade de tentar agradar mais, de tentar se comportar de uma forma reparadora para o outro. Então começa a se submeter a tudo que o outro quer. Começa a obrigar a vítima a fazer coisas que ela está desconfortável para fazer, como incluir outras pessoas dentro da relação sexual, incluir práticas que normalmente a vítima não está à vontade. E ela se submete para servir o outro. Muitas vezes acontece violência sexual mesmo, estupro – e as pessoas acabam não enxergando essas coisas como estupro.

 

 

Que outros abusos podem ocorrer?

 

 

 

Douglas Amorim – Tem também o abuso psicológico. Há uma expressão chamada "gaslighting", que é um abuso emocional em que o abusador tenta mudar a percepção de realidade da vítima. Ele tenta fazer a vítima duvidar da própria sanidade. “Você gritou, fulana”. Ela sabe que não gritou, mas pensa em mudar e questionar a realidade. Ela fica submetida à percepção do outro. Tudo o que o outro disser que ela fez, falou, ela começa a duvidar, começa a realmente acreditar que talvez tenha feito aquilo ali. É pura manipulação.

 

 

Como se dá a evolução destes abusos?

 

 Douglas Amorim – As pessoas precisam entender que todo o processo de relacionamento abusivo não acontece de um dia para o outro. As coisas vão acontecendo de modo gradativo, de modo sugestivo. Para chegar em um nível como as que tiveram coragem de colocar a cara na mídia e falar sobre isso, aconteceram muitas coisas, sempre dentro de um contexto. Os abusadores conseguem entrar na vida da vítima sempre no momento de passagem. Eles tentam com várias, mas as vítimas que acabam entrando estão no momento de passagem. É no término de uma relação ruim anterior, que não necessariamente seja uma relação abusiva, mas que estava fria. Às vezes na morte dos pais da vítima, dentro de um problema financeiro, mudança de carreira. O abusador chega como uma espécie de salvador emocional ou financeiro na vida da vítima. Assim, a vítima entrega emocionalmente tudo para aquele relacionamento. Ela vê o outro como talvez a fonte mais especial de afeto, de cuidado, de carinho, naquele momento. Isso facilita essa entrada.

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 Existe diferença entre esses abusos para a violência?

 

 

 

Douglas Amorim – É muito complicado configurar esses abusos mais emocionais como um crime, por exemplo. São coisas que só a vítima experimenta. Inclusive pessoas ao redor do casal não conseguem perceber. A violência tem a ver com um invadir o direito do outro, tirar do outro o direito. No caso financeiro e da violência física mesmo. Empurrar, aperto no braço, aumentando gradativamente para socos, outros tipos de violência. A diferença é que a violência tem a ver com tirar os direitos do outro. Coisas acontecem dentro de um relacionamento. Brigas mais enérgicas, por exemplo, podem acontecer dentro de relacionamentos saudáveis. A diferença entre um relacionamento saudável em que acontece uma vez ou outra uma briga mais enérgica – não estou falando de violência física – para uma relação abusiva é a continuidade, é o nível gradativo.

 

 

 

Existe um perfil de parceiro que pode cometer esses abusos e violências?

 

 

 

Douglas Amorim – Não tem. A gente compreende que o abusador está em todas as camadas, em todos os perfis, desde o analfabeto até perfil pós-graduado. Todos esses perfis podem ser de um abusador. As pessoas precisam observar incoerências para identificar abusadores. Eles têm grandes características, sendo a primeira eles culparem muito as outras pessoas por coisas que eles fizeram ou viveram. Todas as "ex" são loucas. A maioria tem poucos amigos. Um ou outro são mais populares, têm dificuldade de manter amigos de longa data porque as pessoas vão percebendo e vão se afastando daquele comportamento sistemático. Eles fazem você se sentir culpada desde o início por qualquer coisa. A vítima perde o direito de sentir, de ficar triste, de ficar com raiva, de pensar.

 

 

 

A vítima precisa observar principalmente a culpabilização. Se ela já, por exemplo, pediu desculpa por uma coisa que ela não fez. Isso é um dado muito evidente de uma relação abusiva.

 

 

 

A pessoa que causa abuso e violência sabe o que faz?

 

 

 

Douglas Amorim – Ele tem consciência que aquilo ali é errado, que ele está cometendo crime, que aquilo pode manchar a imagem dele de boa pessoa, que todo abusador tenta manter. Só que ele não se importa, não tem uma empatia. Ele não se importa em como a vítima vai se sentir. O que ele quer é apenas sentir que é a pessoa que tem poder, seja poder pelo medo, pela manipulação, por usar sua própria história, e agir de modo vitimista para poder dominar o outro. Ele sabe que é errado, sabe o que está fazendo, sabe que ele funciona de modo sistemático, manipulador, só que não se importa. Isso acontece em todas as relações abusivas. Não é à toa que tantas mulheres apareceram nesse caso citado – e tenho certeza que outras vão aparecer. Essas pessoas, normalmente, mantêm várias relações ao mesmo tempo. Eles dão conta de fazer isso. Já pareceram mais de 10 mulheres e tenho certeza que há muito mais vítimas.

 

Fonte: Mídia news

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