LUCAS DO RIO VERDE
Filha de Gleici Keli detalha “inferno doméstico” e diz que padrasto usava manipulação e humilhações por 15 anos
Biomédica relata 15 anos de brigas, humilhações e episódios de sofrimento psicológico vividos pela mãe antes do feminicídio em Lucas do Rio Verde
A biomédica Caroline Fernandes, 24 anos, filha da terapeuta capilar Gleici Keli Geraldo de Souza, 42, assassinada a facadas pelo marido Daniel Bennemann Frasson, criou um perfil em uma rede social dedicado a pedir justiça pela morte da mãe. No espaço, a jovem revela detalhes da convivência com o padrasto e relata um relacionamento marcado por brigas, chantagens emocionais, isolamento e desentendimentos constantes.
Caroline também questiona a conclusão do laudo da Politec que classificou o acusado como possivelmente inimputável, alegando que o histórico de comportamento de Daniel não condizia com alguém incapaz de entender seus atos.
“Foram 15 anos acreditando que ele iria mudar”, diz filha
Em seus relatos, Caroline afirma que a mãe permaneceu ao lado de Daniel por 15 anos, acreditando que poderia mudar o companheiro. Ela conta que conviveu com o casal por seis anos, na época em que moravam em Tangará da Serra, e define a rotina na casa como “um inferno”.
“Ele apareceu quando eu tinha 9 anos. Em um mês, já passou o Natal conosco e pediu para que eu o chamasse de pai. Os primeiros anos foram tranquilos, porque eles ainda não tinham nada. Depois tudo mudou”, narra.
Caroline descreve que Daniel foi expulso da república onde morava durante a faculdade e passou a morar com ela e a mãe até conseguir uma kitnet. Com o tempo, formou-se, conseguiu emprego e, segundo a jovem, quanto mais evoluía profissionalmente, pior ficava dentro de casa.
Choros trancados no banheiro e brigas constantes
A biomédica lembra que cansou de ver a mãe chorando trancada no banheiro e chegando a desmaiar de nervosismo após discussões. Ela conta que inúmeras vezes tentou conversar com a mãe sobre o relacionamento, mas Gleici insistia que poderia mudar o marido.
“Incontáveis vezes minha mãe era chamada de ‘louca’. A casa virou um campo de guerra. Eu de um lado, ele do outro, e minha mãe no meio”, relata.
Com 12 ou 13 anos, Caroline diz ter percebido que precisava tolerar a situação para evitar mais sofrimento à mãe.
Mudança para Lucas do Rio Verde e agravamento da relação
Caroline conta que a mãe deixou a vida em Tangará da Serra e mudou-se para Lucas do Rio Verde para acompanhar o sonho profissional de Daniel. A filha permaneceu em Tangará devido à faculdade, mas após concluir o curso mudou-se para Lucas, tentando ficar mais perto da irmã caçula e da mãe.
Segundo ela, apesar de alguns momentos saudáveis, eram exceções. “Não consigo lembrar de uma viagem em família que tenha sido realmente boa, porque todas ele estragava com o mau humor dele. Ele sempre se isolava no quarto”, afirma.
“Conheço o assassino da minha mãe melhor que você”
No desabafo, Caroline também direciona indiretas a um familiar de Daniel que teria questionado sua convivência com o casal.
“Você pode achar que conhece seu parente mais do que eu, mas tenho certeza de que conheço o assassino da minha mãe melhor que você”, escreveu.
A jovem publicou ainda prints de conversas em que a mãe pedia conselhos sobre o relacionamento e relatava sentimentos de abandono. Em uma das mensagens, Gleici afirma que o marido não apoiava seus projetos, incluindo sua marca de produtos capilares.
“Em vez de me apoiar, você se afasta, me trata com desdém e me magoa. Chego a questionar se há algo por trás disso”, escreveu Gleici à época.
O caso
Gleici Keli Geraldo de Souza, 42, foi assassinada a facadas em 24 de junho, enquanto dormia, na casa da família em Lucas do Rio Verde. O marido, Daniel Bennemann Frasson, 36, foi preso em flagrante acusado de feminicídio. A filha de 7 anos do casal também foi esfaqueada e chegou a ficar dias internada na UTI, mas sobreviveu e hoje vive com a irmã mais velha.
No dia do crime, Daniel tentou tirar a própria vida. Ele foi socorrido com ferimentos e, após receber alta em um hospital da cidade, foi transferido para o Centro de Ressocialização de Sorriso.
Laudo aponta inimputabilidade; família contesta
Um laudo da Politec-MT concluiu que Daniel pode ser inimputável, ou seja, que no momento do crime não teria plena capacidade de entender o caráter ilícito do ato ou de se controlar. O engenheiro permanece preso preventivamente e recebe medicação na unidade prisional.
A Justiça ainda vai decidir se ele será submetido a júri popular ou se receberá uma medida de segurança, caso a tese de transtorno mental seja aceita.
Caroline, contudo, contesta publicamente essa versão e tenta mostrar, por meio das publicações, que o comportamento do padrasto ao longo de 15 anos não condiz com o retrato apresentado no laudo.
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