GUERRA DE FACÇÕES
Vendedores de abacaxi são confundidos com facção rival e são torturados
Dois vendedores de abacaxi tiveram as mãos e os pés amarrados por membros do Comando Vermelho em Dom Aquino
Dois vendedores de abacaxi foram amarrados e torturados por supostos membros do Comando Vermelho (CV) no município de Dom Aquino (180 Km de Cuiabá), na noite da última quinta-feira (27). As vítimas teriam sido “confundidas” com integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), facção rival do CV.
De acordo com o registro de ocorrência da PM, o proprietário de uma quitanda em Jaciara (150 Km de Cuiabá) estranhou quando seus dois funcionários, que foram vender abacaxi em Dom Aquino, não retornaram seus contatos. Ele falou com a esposa de uma das vítimas, que acionou a Polícia Militar.
Conforme o relato da PM, a esposa conseguiu rastrear o telefone celular do marido, passando sua localização aos policiais, e informando que as vítimas utilizam um pick up Fiat Strada para vender os abacaxis.
Os policiais de Jaciara acionaram a PM em Dom Aquino, que foi verificar a localização informada no rastreamento, na Vila Esportiva. No ponto indicado, os agentes de segurança encontraram a Fiat Strada com a carga de abacaxi, e outros três veículos – um Fiat Uno, um Volkswagen Gol e uma Toyota Hilux – todos destrancados, numa rua sem saída.
Os policiais suspeitaram das circunstâncias, e abordaram os residentes de uma casa onde a Hilux estava estacionada, na calçada. Os suspeitos (três pessoas) não souberam informar o motivo da caminhonete estar ali. A PM chamou reforços, e iniciou uma varredura nas imediações.
Num seringal próximo à casa onde a Hilux estava estacionada, os PMs, após entrarem na mata, ouviram gritos de socorro, localizando os vendedores de abacaxi, que estavam com as mãos e os pés amarrados.
EXECUÇÃO NA FOICE
Durante a conversa com os PMs, as vítimas relataram estarem vendendo as frutas em Dom Aquino quando um suspeito, de bicicleta, comprou um abacaxi. Ele advertiu os vendedores, dizendo que deviam “explicações” ao Comando Vermelho, alegando que a placa da Fiat Strada era de Campo Grande (MS), supostamente “dominada” pelo PCC.
“Um homem magro, moreno de estatura mediana se aproximou deles com uma bicicleta, comprou um abacaxi e em seguida informou que eles deviam explicar para a facção Comando Vermelho o motivo de estarem na cidade, sendo que eles estavam vendendo abacaxi na cidade com um veículo de emplacamento do município de Campo Grande-MS, sendo que neste município existe um domínio da facção rival (Primeiro Comando da Capital-PCC)”, diz trecho do registro de ocorrência.
Em seguida, conforme a PM, um outro suspeito, numa moto (Honda Titan, de cor vermelha), apareceu no local, mostrou uma arma de fogo, e mandou os vendedores seguirem o faccionado que estava de bicicleta.
Conforme as vítimas, enquanto seguiam o suspeito na bicicleta, eles perceberam que eram “escoltados” por um Gol branco, um dos veículos que estava estacionado no local indicado do rastreamento, que foi para onde seguiram, na Vila Esportiva. Quando chegaram lá, o Fiat Uno também já havia chegado.
Dois homens, junto com o “faccionado” da bicicleta, chamaram o dono da residência onde posteriormente estacionou a Hilux, levando os vendedores para os fundos da casa e iniciando a sessão de tortura com socos, chutes, tapas no rosto e ameaças. Eles “vasculharam” os telefones celulares das vítimas, indagando sobre “sinais” com as mãos, que os identificariam como membros do PCC, segundo os supostos integrantes do CV.
Pouco depois, a Hilux chegou até a residência com outros três suspeitos, que levaram uma das vítimas ao seringal próximo da residência, onde continuou a ser pressionado para “confessar” que era do PCC. Ele conta que sofreu golpes de madeira nas mãos, chutes e tapas no rosto. O outro vendedor também foi trazido para o seringal pelos suspeitos, que amarraram as mãos e os pés de ambos.
Ainda de acordo com o registro de ocorrência, após a sessão de tortura, os supostos membros do CV disseram que iriam executar os vendedores, que lembram que oito homens apareceram no local, todos armados com foices, se dizendo integrantes da facção criminosa. Neste momento, no entanto, a PM havia chegado no local, após ser informada do rastreamento feito pela esposa de uma das vítimas, afugentando os faccionados.
A PM chegou a realizar um cerco na região de mata próxima ao local dos crimes até o início da manhã da última sexta-feira (28), mas não localizou os faccionados. As três pessoas da residência, que participaram da tortura, foram conduzidas para a delegacia de polícia. Um quarto suspeito também foi reconhecido pelas vítimas por meio de fotos. O caso segue investigado.
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